12 de abril de 2017 admin 0Comment

Todos desejam ser felizes, sentir-se bem, encontrar-se a salvo dos que causam sofrimento. Para isso, como já explicamos, aquele que chamamos de eu utiliza uma bússola muito rudimentar, que distingue agrado e desagrado, fervor e rejeição, atração e repulsa, bom e mau. Nós nos aproximamos e nos unimos ao que nos agrada e nos afastamos do que não gostamos. Assim, enquanto o que desejamos acontece estamos bem, e quando o que acontece é aquilo que não desejamos, quando não podemos evitar e acaba acontecendo, estamos mal. Resultado: alegrias e fugazes.

Não se trata de desdenhá-las nem de não lhes dar a importância que têm. Há, por exemplo, algo mais belo que saber que as pessoas queridas estão bem? Não é bom que alguns sonhos amplamente desejados se cumpram? Claro que isso é importante no plano dos desejos pessoais e dos vínculos. Embora não durem, nos proporcionam momentos de intenso prazer. O eu está contente, embora seja apenas por curto espaço de tempo.

Não obstante, o eu costuma se encontrar bastante incerto em relação aos avatares de sua realidade, e vive de maneira tão apaixonada nos pensamentos que produz que chega a esquecer que se trata apenas de pensamentos, não da realidade nela mesma. Vive à mercê de seus diálogos internos, de seu ruído mental, opiniões, fixações e fobias, ignorante da doce liberação que lhe concederia limpar tamanha opinião, tudo aquilo que toma por estrita verdade ou mentira. As palavras de nossa mente orgulhosa anulam o espírito que nos orienta, silencioso criador e testemunha de tudo que acontece debaixo do Sol.

Aquele que chamamos de eu trata de encontrar proteção e desconfia do que é em vez de amá-lo. Prefere o que deveria ser  no lugar do que é. Sem dúvida, o grande bem estar, é summum bonum da felicidade, encontra-se no amor absoluto, inclusive, indiscutível ao que é, ao que se apresenta em cada momento, além dos desejos ou temores do eu. Esta é a tese principal de todas as tradições espirituais e da sabedoria: Deus sabe melhor o que o homem necessita do que ele mesmo, e tudo, absolutamente tudo, inclusive aquilo que não parece, indica a conservar e fazer florescer o resplendor da alma.

A grande felicidade, estável disse sim ao que é. Porque em sua bagagem os desejos e os temores do eu pesam pouco. A grande felicidade fermenta em um eu que alcança a paradoxal grandeza de ser pequeno e aprende a atravessar, em contato com seu profundo, a dor das dificuldades inevitáveis.

Para muitas pessoas, o prefácio da dimensão do ser, do grande sorriso, da alegre irradiação, é uma época de intenso sofrimento na qual qualquer tentativa do eu de se organizar e perseverar fracassa. Um dia, casualmente, é como se abrisse a porta de outra dimensão. Despertam-se ao amor de seu coração, à paz do corpo e ao silêncio da mente.

Joan Garraga – Viver na alma. P.91 e 92.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *